Terça-feira, 21 de Julho de 2009

Artigo de Margarida Rebelo Pinto sobre a viagem a Moçambique

Artigo de Margarida Rebelo Pinto

Apesar de tudo,

29 de Maio de 2009

Os paraísos servem-nos para esquecer que o resto do mundo existe ou para nos lembrar que o mundo pode ser um lugar melhor?
Depois de uma semana em Moçambique, onde visitei Maputo e as belas ilhas do Bazaruto e de Santa Carolina, regressei de África com a sensação de ter
visitado uma outra face da terra.

Por mais filmes que se vejam, mais livros que se leiam, por mais documentários e notícias que nos passem debaixo dos olhos, África só
pode ser absorvida, entendida e sentida in loco, com as suas cores e os seus cheiros, a sua beleza e a sua miséria, a sua música e a sua
magia, a sua imensidão e as suas gentes. Foi preciso ir a África para finalmente perceber a nostalgia incurável, qual malária do coração,
dos que lá nasceram, cresceram ou viveram, e que a descolonização obrigou a uma partida forçada.

O que mais me tocou em Moçambique foi o povo moçambicano: educado, afável, tranquilo, feliz. Apesar da miséria, apesar da fome, apesar
das doenças, apesar de tudo. África é um continente sem filtro; tudo se vive à flor da pele e em carne viva. E tudo é brutal, seja o belo
ou o horrendo. Mas os moçambicanos possuem uma doçura que deve ser só deles e que me conquistou para sempre. Viajei para lá contente e
regressei feliz. Fui leve e voltei ainda mais leve.

À parte do clássico episódio da intoxicação alimentar, tive uma viagem de sonho, não só pela beleza de tudo o que vi, pela forma como fui
tratada. Os empregados do Pestana Lodge no Bazaruto já sabiam o meu nome desde o segundo dia e quando foi preciso tratar da maleita,
fizeram-me canja, maçã cozida e não descansaram enquanto não me viram outra vez com cores na cara. Ora este tipo de atenção não está
incluído naquilo a que chamamos serviço de luxo. Um calor genuíno fez-me pensar como nos relacionamos com os outros, independentemente
daquilo que eles nos possam dar em troca. Uma atitude generosa gera quase sempre generosidade do outro lado. A paz puxa a paz, a bonomia
puxa a bonomia, a empatia gera empatia.

Não sei quando voltarei a África nem sequer se o que lá vivi perdurará na minha existência, mas tenho a certeza de que aprendi mais do que
penso, de que vi mais do que acredito ter visto e de que guardei mais do que agora me lembro. O que eu sei é que me ficou na pele aquela
forma de ser e de estar moçambicana, os sorrisos que dão a volta à cara toda, as músicas entoadas nas carrinhas de caixa aberta que
atravessam a cidade ao fim-de-semana com dezenas de homens e mulheres a caminho de um casamento, a alegria natural e espontânea que nunca
pode ser fingida nem fabricada. Há muito amor em Moçambique. Muito amor e muito prazer, apesar da fome, apesar da miséria, apesar de tudo.

Margarida Rebelo Pinto semanalmente em http://sol.sapo.pt/Blogs/margaridarebelopinto

Enviado por Rui Pimentel (Arq.)

3 comentários:

sobretisobrenos disse...

Fiquei arrepiada com esse texto. A Margarida descreveu este meu Moçambique na perfeição. Este País que me está entranhado na pele, na alma, no coração.
Beijinhos

Sandra e Dinis disse...

O meu marido fez a sua viagem de sonho... conhecer Moçambique o país onde foi fabricado!

Foi memso uma aventura pelas palavras dele, andou por estradas (caminhos) onde nao havia ninguém para ajudar se alguma coisa acontecesse e sabes ADOROU! Especialmente as praias maravilhosas que eles têm. Pena é mesmo a destruição deixada pela guerra. Era uma viagem onde gostava de ir e agora com o nosso filhote.

Kisses

AE disse...

De facto, África é assim.
Mas o que a Margarida R.Pinto ainda não descobriu é que pode substituir, no texto, Moçambique por Angola, ou por S.Tomé, ou por Goa e por aí fora.
E tudo continuará a ser verdade.
Estes bocadinhos de mundo, ligados pela mesma língua, têm muito para revelar.